A você, meu caro Millôr Fernandes...

Vinicius de Moraes

A você, meu caro Millôr Fernandes  (Poeta íntimo, homem triste, grande humorista, mais conhecido por Vão Gôgo  E às vezes […] )  A você que me pede o poema da minha tão sonhada volta ao Rio  Eu direi humildemente: faço.  Não é fácil, mas faço. Sem dúvida melhor fora  Sair por aí transpirando e sonâmbulo, os braços estendidos  A todos os azuis, os pés  Indiferentes a todos os abismos, a aspirar, de olhos cerrados  Os úmidos perfumes desta cidade de infinitas paciências  E fragrâncias. Entretanto  Coisa grave é um poema, e eu me dedicarei provisoriamente  A tão duro dever. Nada lhe prometo, porém  De bom de vez que ora sou apenas o filho pródigo e sinto-me ainda obnubilado  De beleza.  Ah, nada mais doce que essa sensação de pousar a cabeça no colo morno da pátria  E deixar-se estar olhando o céu - como no Arpoador  Onde se morre a cada instante ante o dilema  Natureza e mulher. Que coisa, Millôr Fernandes  A mulher no Rio! Quantas cortinas  De veludo nos seus olhos, e com que maciez são abertas  Até a vida! Que delícia, Millôr Fernandes  Que grande delícia! A ela, antes e primeiro - salve!  E salve lindo! Por ela tudo: poemas, alaúzas, ombro-armas  Mortes, ressurreições.  A que vai nunca é como a que vem. Ah, não é ela  Número apenas, nem traz a fisionomia  Pregada ao rosto como uma máscara. A ela  Salve, e salve lindo! Por ela tudo: poemas, alaúzas, ombro-armas  Mortes, ressurreições.