10 poemas de amor por Vinicius de Moraes

Vinicius foi sem dúvida um ícone na poesia e na música brasileira. Especialista em escrever sobre amor, o poeta casou-se nove vezes e viveu intensamente todos os seus romances. Dentre os vários assuntos abordados em sua poesia, sem dúvida o amor deixou uma marca forte em toda sua obra.

Amor, escuta um segredo  Tua pele é lisa, lisa  Minha palma que a analisa  Não tem medo: fica nua.  Fica de tal modo nua  Que eu, ante tanto abandono  Transforme o desejo em sono  E não seja apenas teu.
De tudo, ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento. Quero vivê-lo em cada vão momento E em louvor hei de espalhar meu canto E rir meu riso e derramar meu pranto Ao seu pesar ou seu contentamento. E assim, quando mais tarde me procure Quem sabe a morte, angústia de quem vive Quem sabe a solidão, fim de quem ama Eu possa me dizer do amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure.
Todas as namoradas que eu já tive  Estão noivas  Uma só dentre todas não está noiva  Casou-se.  Nenhuma se lembra mais de mim  As que tiveram meus beijos evitam meus olhos  As que tiveram minha afeição riem mal de mim  E beijam furtivamente os noivos nos cinemas e nas praias  Todas têm meus sonetos de amor  Com promessas ardentes de constância e fidelidade  Todas têm meu retrato  O retrato do menino risonho que eu já fui  Com todas eu gastei algumas horas do dia  E algumas horas da noite  Todas estão noivíssimas  E são apenas meninas sem juízo fazendo o que querem  Dando aos namorados anteriores a satisfação social do noivado  E exibindo o noivo bonito aos olhos das moças sem namorado.  Algumas eu estimei sinceramente  Sem grandes palavras mas com olhares francos  Olhares que eu estudava nos bondes com outras  Para fazê-los ainda mais verdadeiros  Com outras me diverti  Passeando horas e horas braço com braço  Com palavras grandes e pequenos olhares  A todas eu feri inconscientemente  As que eu beijei e as que eu não beijei  As que eu beijei porque um dia não quis beijar  As que eu não beijei porque um dia quis beijar.  Vi-as fugirem todas de mim  E me vi fugindo de todas elas  Vejo-as agora aqui e ali ontem e hoje  A casada, com um filho  As noivas, com brilhos maternais nos olhos  Futuros infelizes para o mundo  Vejo-me por momentos pai de família comprando brinquedos  E a satisfação de estar só é tão grande  Que no fundo eu estimo sinceramente todas essas meninas  Que estão noivas e serão muito felizes  E a que está casada e não é feliz mas faz que é  E me estimo mais, ainda, a mim próprio  Que estou só, feliz e só, com os meus amigos e com a minha boemia discreta.
Vem ver o mar  Vem que Copacabana é linda  Vamos ser só nós dois  E o que vai ser depois  É melhor, é melhor nem pensar  Ah, namorar!  Os casais nem parecem saber  Nos seus beijos de amor  E o que resta depois  É a valsa do amor de nós dois  Pelas linhas sinuosas  Do passeio à beira-mar  Todo o Rio de Janeiro  Vai querer dançar  E nós, depois  Partiremos num beijo de luz  Pelo céu ao luar  A dançar, a dançar  Esta valsa do amor  De nós dois
Vamos brincar, amor? vamos jogar peteca  Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo  Vamos subir no elevador, vamos sofrer calmamente e sem precipitação?  Vamos sofrer, amor? males da alma, perigos  Dores de má fama íntimas como as chagas de Cristo  Vamos, amor? vamos tomar porre de absinto  Vamos tomar porre de coisa bem esquisita, vamos  Fingir que hoje é domingo, vamos ver  O afogado na praia, vamos correr atrás do batalhão?  Vamos, amor, tomar thé na Cavé com madame de Sevignée  Vamos roubar laranja, falar nome, vamos inventar  Vamos criar beijo novo, carinho novo, vamos visitar N. S. do Parto?  Vamos, amor? vamos nos persuadir imensamente dos acontecimentos  Vamos fazer neném dormir, botar ele no urinol  Vamos, amor?  Porque excessivamente grave é a Vida.
Ser criado, gerar-se, transformar  O amor em carne e a carne em amor; nascer  Respirar, e chorar, e adormecer  E se nutrir para poder chorar  Para poder nutrir-se; e despertar  Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir  E começar a amar e então sorrir  E então sorrir para poder chorar.  E crescer, e saber, e ser, e haver  E perder, e sofrer, e ter horror  De ser e amar, e se sentir maldito  E esquecer tudo ao vir um novo amor  E viver esse amor até morrer  E ir conjugar o verbo no infinito...
Los Angeles O Amor tonifica o cabelo das mulheres  Torna-o vivo e dá-lhe um brilho natural.  Ondulações permanentes? só das do amor. Amai!  Nada melhor que o Amor para as moléstias do couro cabeludo.  O Amor ilumina os olhos das mulheres  Olhos sem cor? Amor! Olhos injetados?  Colírio lágrimas de Amor! Amai mulheres!  O Amor branqueia a córnea, acende a íris, dilata as pupilas cansadas.  O Amor limpa de rugas a fronte das mulheres  Para pés-de-galinha, beijos de Amor. Tende sempre em mente:  O Amor coroa as mulheres de pesados diademas invisíveis  Amai mulheres! A mulher que ama move-se dignamente.  O Amor heleniza o nariz das mulheres  Quando não dá-lhes delicados riques, particularmente nas asas.  Narizes gordurosos, com propensão a cravos, acnes ou espinhas?  Amai, mulheres! esfregando de leve os narizes de encontro ao nariz amado.  Amor horizontal é melhor e não faz mal. Bocas plenas rosadas palpitantes?  Beijos de Amor constantes! mantêm-nas bem lubrificadas.  Se quereis conservar aceso o ardor dos que vos amam  Beijai, mulheres! doce, triste, alegre, violentamente apaixonadas.  Nem Ardens, nem Rubinsteins: morte às pomadas!  Pomadas, cremes, só de amor, amadas!  Pele jovem e macia? amai se possível todo o dia  E ante o esplendor de vossas peles há de ruborizar-se a madrugada.  O Amor estimula extraordinariamente a higiene bucal  Os amorosos lavam-se os dentes, dão-se massagens nas gengivas, limpam-se as línguas com água e sal  Que é, como todos sabem, o composto químico da saliva  Que conseqüentemente se ativa impedindo a halitose e tornando a carícia palatal.  Não sabe aquela que só compra Lifebuoy?  Perdeu o marido e nunca soube como foi.  Sim, lavai-o debaixo de vossas asas, ó anjos, mas nada de exagero:  Uma axila sem cheiro pode levar um homem ao desespero.  Basta de pastas: ó tu que transportas o leite contigo  Bom até a última gota! sou teu amigo ouve o que te digo;  Se amares o sangue funcionará melhor em tuas glândulas mamares  E terás seios autodidatas firmes objetivos singulares.  Chega de plásticas cirúrgicas, radioterapias e outras perfumarias  Vivei e amai ao sol: para aquele que vos ama vossos defeitos são poesia  Nada mais lindo que a feiúra da mulher amada.  Por isso eu sempre digo: qual regulador qual nada!  Regulador? besteira! Amai, mulheres. A verdadeira  Saúde da mulher está em ser boa companheira  Dê e tome, tome e mate, e mate de Amor. A mulher que se preza  Sabe sorrir. Conserve o seu sorriso. Valha o quanto pesa.  Se é de Amor, é bom. Eu sempre digo, e faço figa  Do que me diga não ser melhor que óleo de fígado.  Pois além de excitar o metabolismo basal  Para o simpático é o tônico ideal.  Eis o seu mal, não amar. Daí, decerto, a causa  Dessas palpitações, enxaquecas e náuseas...  O espetáculo começa quando a senhora chega. Espere um instante por favor  E repita comigo, bem devagar: A-M-O-R.
O amor é o murmúrio da terra  quando as estrelas se apagam  e os ventos da aurora vagam  no nascimento do dia...  O ridente abandono,  a rútila alegria  dos lábios, da fonte  e da onda que arremete  do mar...  O amor é a memória  que o tempo não mata,  a canção bem-amada  feliz e absurda...  E a música inaudível...  O silêncio que treme  e parece ocupar  o coração que freme  quando a melodia  do canto de um pássaro  parece ficar...  O amor é Deus em plenitude  a infinita medida  das dádivas que vêm  com o sol e com a chuva  seja na montanha  seja na planura  a chuva que corre  e o tesouro armazenado  no fim do arco-íris.
Ouve como o silêncio  Se fez de repente  Para o nosso amor  Horizontalmente...  Crê apenas no amor     E em mais nada  Cala; escuta o silêncio     Que nos fala  Mais intimamente; ouve     Sossegada  O amor que despetala     O silêncio...  Deixa as palavras à poesia...
Maior amor nem mais estranho existe  Que o meu, que não sossega a coisa amada  E quando a sente alegre, fica triste  E se a vê descontente, dá risada.  E que só fica em paz se lhe resiste  O amado coração, e que se agrada  Mais da eterna aventura em que persiste  Que de uma vida mal-aventurada.  Louco amor meu, que quando toca, fere  E quando fere vibra, mas prefere  Ferir a fenecer - e vive a esmo  Fiel à sua lei de cada instante  Desassombrado, doido, delirante  Numa paixão de tudo e de si mesmo.