Martírio

Castro Alves

A linda morena que, louco, adorava, Que em sonhos beijava, tremendo de amor, Não viu meus amores, descreu do meu canto, Sorriu do meu pranto, com riso traidor. Cismava — era ela o meu bom pensamento; O meu sentimento se louco sentia; Meu anjo da guarda nas noites de insônia, Meu doce favônio se a espr’ança nascia. E sempre eu a via: no céu seus encantos, Na brisa os seus cantos julgava escutar, Na noite o negrume dos negros cabelos, Seus olhos tão belos no belo luar. Mas foi um delírio de louca miragem Formosa paisagem do amor que sonhei... A rosa que dei-lhe, queimada de beijos, Serviu aos desejos de alguém? oh! não sei... Mulher, sim, não rias do pobre, do triste! Por que não cuspiste na pobre flor? Mas fundo desprezo mostrar-me quiseste, Ludíbrio fizeste de mim, deste amor... Pois bem; eu não posso deixar de adorar-te... Quem pode escapar-te, quem pode esquecer-te? Desprezos não matam amores tão santos, Só posso meus prantos p’ra sempre esconder-te. Despreza-me, virgem, minh’alma te implora! Verás nessa hora que chama de amor! E cada suplício que sofra minh’alma É mais uma palma da c’roa da dor.