Noturnamente - se me lembro!...

Vinicius de Moraes

Noturnamente - se me lembro! como que a estranha carga se diluía de meus ombros ante as irradiações esplêndidas  E desembaraçado eu seguia através as cidades se abrindo ao sésamo misterioso do meu sangue batendo  E chegava mesmo a perseguir as belas éguas cuja pele branca avultava na claridade mágica  E fugiam balançando os peitos e o flanco rasgado onde a fecundidade eu via.  Mas quando chegava a satisfazer o ímpeto que me arrastava como um desesperado pelas ruas  E voltava vazio como se tivesse matado a alma nos estrangulamentos da carne rígida  Subitamente sentia de novo a carga me fazendo vergar o rosto para a terra  E o chicote me cortava as faces e o espírito esporeado galopava éguas na treva.  Pelos dias eu vou - e a minha sombra fareja o caminho - mas quando meu pensamento chega a minha alma já está  Um momento eu bebo o instante certo de que será para sempre - ó os campos onde estarei sozinho!  No entanto obrigam-me a andar - ai de mim, é demais! porque eu sei que aquele pio de ave é o grito dos sertões desaparecidos  E aquela pedra de forma estranha é a montanha escancarada e aquele torrão de terra é a sede nas fontes.  Às vezes um ruído me assalta e eu paro e escuto - um fraco farfalhar de folhas - tremo  Temo os dolorosos ecos das grotas, os luares e as águas que escorrem ocultas e eternas  Sei que entre os líríos das encostas há víboras que espreitam e sei que é frágil a margem dos precipícios Mas o pior castigo é ter que seguir pelo solo seguro e infinito do meio das estradas  Porque há muito tempo eu sou a alimária de um anjo cuja missão eu desconheço  Um anjo de grande sombra informe que se confunde com a treva da minha caminhada  E cujo riso fúnebre me apavora quando a garra da luxúria me amargura os membros  E cuja ira me condena ao castigo de um arrependimento solitário e eterno.