O escravo

Vinicius de Moraes

<em>J'ai plus de souvenirs que si j'avais mille ans. </em> Baudelaire  <em>A grande Morte que cada um traz em si.</em>  Rilke  Quando a tarde veio o vento veio e eu segui levado como uma folha E aos poucos fui desaparecendo na vegetação alta de antigos campos de batalha Onde tudo era estranho e silencioso como um gemido. Corri na sombra espessa longas horas e nada encontrava Em torno de mim tudo era desespero de espadas estorcidas se desvencilhando Eu abria caminho sufocado mas a massa me confundia e se apertava impedindo meus passos E me prendia as mãos e me cegava os olhos apavorados. Quis lutar pela minha vida e procurei romper a extensão em luta Mas nesse momento tudo se virou contra mim e eu fui batido Fui ficando nodoso e áspero e começou a escorrer resina do meu suor E as folhas se enrolavam no meu corpo para me embalsamar. Gritei, ergui os braços, mas eu já era outra vida que não a minha E logo tudo foi hirto e magro em mim e longe uma estranha litania me fascinava. Houve uma grande esperança nos meus olhos sem luz Quis avançar sobre os tentáculos das raízes que eram meus pés Mas o vale desceu e eu rolei pelo chão, vendo o céu, vendo o chão, vendo o céu, vendo o chão Até que me perdi num grande país cheio de sombras altas se movendo... Aqui é o misterioso reino dos ciprestes... Aqui eu estou parado, preso à terra, escravo dos grandes príncipes loucos. Aqui vejo coisas que mente humana jamais viu Aqui sofro frio que corpo humano jamais sentiu. É este o misterioso reino dos ciprestes Que aprisionam os cravos lívidos e os lírios pálidos dos túmulos E quietos se reverenciam gravemente como uma corte de almas mortas. Meu ser vê, meus olhos sentem, minha alma escuta A conversa do meu destino nos gestos lentos dos gigantes inconscientes Cuja ira desfolha campos de rosas num sopro trêmulo... Aqui estou eu pequenino como um musgo mas meu pavor é grande e não conhece luz É um pavor que atravessa a distância de toda a minha vida. É este o feudo da morte implacável... Vede — reis, príncipes, duques, cortesãos, carrascos do grande país sem mulheres São seus míseros servos a terra que me aprisionou nas suas entranhas O vento que a seu mando entorna da boca dos lírios o orvalho que rega o seu solo A noite que os aproxima no baile macabro das reverências fantásticas E os mochos que entoam lúgubres cantochões ao tempo inacabado... É aí que estou prisioneiro entre milhões de prisioneiros Pequeno arbusto esgalhado que não dorme e que não vive À espera da minha vez que virá sem objeto e sem distância. É aí que estou acorrentado por mim mesmo à terra que sou eu mesmo Pequeno ser imóvel a quem foi dado o desespero Vendo passar a imensa noite que traz o vento no seu seio Vendo passar o vento que entorna o orvalho que a aurora despeja na boca dos lírios Vendo passar os lírios cujo destino é entornar o orvalho na poeira da terra que o vento espalha Vendo passar a poeira da terra que o vento espalha e cujo destino é o meu, o meu destino Pequeno arbusto parado, poeira da terra preso à poeira da terra, pobre escravo dos príncipes loucos. ---