Sacrifício

Vinicius de Moraes

Num instante foi o sangue, o horror, a morte na lama do chão. — Segue, disse a voz. E o homem seguiu, impávido Pisando o sangue do chão, vibrando, na luta. No ódio do monstro que vinha Abatendo com o peito a miséria que vivia na terra O homem sentiu a própria grandeza E gritou que o heroísmo é das almas incompreendidas. Ele avançou. Com o fogo da luta no olhar ele avançou sozinho. As únicas estrelas que restavam no céu Desapareceram ofuscadas ao brilho fictício da lua. O homem sozinho, abandonado na treva Gritou que a treva é das almas traídas E que o sacrifício é a luz que redime. Ele avançou. Sem temer ele olhou a morte que vinha E viu na morte o sentido da vitória do Espírito. No horror do choque tremendo Aberto em feridas o peito O homem gritou que a traição é da alma covarde E que o forte que luta é como o raio que fere E que deixa no espaço o estrondo da sua vinda. No sangue e na lama O corpo sem vida tombou. Mas nos olhos do homem caído Havia ainda a luz do sacrifício que redime E no grande Espírito que adejava o mar e o monte Mil vozes clamavam que a vitória do homem forte tombado na luta Era o novo Evangelho para o homem da paz que lavra no campo. ---