Provavelmente não virei montado...

Vinicius de Moraes

Provavelmente não virei montado  Em cavalo nenhum, como soía  Nem de armadura, que essa, trago vestida  Feita do aço da vida  Sobre a cota de malha do silêncio.  É possível até que chegue bêbado  E se em janeiro, de camisa esporte.  O importante é chegar, ser a unidade  Ser a cidade e eu, eu e a cidade  Ouvir de novo o mar se estilhaçando  Nas rochas ou bramindo no oceano  Sozinho como um Deus. Ou no verão  No verão, quando o sol, embora oculto  Queima a cera da Lua  Ver - ó visão! Vênus morrer nas ondas  A pura, a louca, a grande suicida  Cuja morte restitui os homens à vida  Na ilusão do tempo. Oh bem-amada  Cidade! como mulher petrificada  Em nádegas e seios e joelhos  De rocha milenar, e verdejante  Púbis e doces axilas e cabeleira  Vegetal  Mulher adormecida junto ao mar  Eu te amo em teu sol e teu luar  Junto de ti me sinto, tua luz  Não fere o meu silêncio. O meu silêncio  Te pertence. Eu sei que, resguardada  De seres que se movem entre teus braços  Teus olhos têm visões de outros espaços  Passados e futuros.  *  Esta é a cidade em que te vi passando  Esta é a cidade que me viu sofrendo  Esta é a cidade que trilhei fugindo  Metrópole fatal, hosana! hosana!  Esta é Copacabana, ampla laguna  Curva e horizonte, arco de amor vibrando  Suas setas de luz contra o infinito.  Aqui meus olhos desnudaram estrelas  Aqui meus braços discursaram à Lua  Desabrochavam tigres dos meus passos  E as sereias por mim se consumiam.  Copacabana! praia de memórias  Quantos êxtases, quantas madrugadas  Em teu colo marítimo! esta é a areia  Que tanto enlamacei com minhas lágrimas  Aquele é o bar que freqüentei. Vês tu  Aquele escuro ali? É um monumento  Cone de sombra erguido pela noite  Para marcar por toda a eternidade  O local onde, um dia, fui perjuro  Ao teu amor. Ali beijei-te ansiado  Como se a vida fosse terminar  Naquele louco embate. Ali cantei  Ali menti, ali me silenciei  Para gozo da aurora pervertida.  Sobre o banco de pedra que ali está  Nasceu uma poesia. Ali jurei  Um dia me matar. Ali fui mártir  Fui covarde, fui bárbaro, fui santo.