Tríptico na morte de Sergei Mikhailovitch Eisenstein

Vinicius de Moraes

I Camarada Eisenstein, muito obrigado Pelos dilemas, e pela montagem De <em>Canal de Ferghama</em>, irrealizado E outras afirmações. Tu foste a imagem Em movimento. Agora, unificado À tua própria imagem, muito mais De ti, sobre o futuro projetado Nos hás de restituir. Boa viagem Camarada, através dos grandes gelos Imensuráveis. Nunca vi mais belos Céus que esses sob que caminhas, só E infatigável, a despertar o assombro Dos horizontes com tua câmara ao ombro... <em>Spasibo, tovarishch. Khorosho</em>. II Pelas auroras imobilizadas No instante anterior; pelos gerais Milagres da matéria; pela paz Da matéria; pelas transfiguradas Faces da História; pelo conteúdo Da História e em nome de seus grandes idos Pela correspondência dos sentidos Pela vida a pulsar dentro de tudo Pelas nuvens errantes; pelos montes Pelos inatingíveis horizontes Pelos sons; pelas cores; pela voz Humana; pelo Velho e pelo Novo Pelo misterioso amor do povo <em>Spasibo, tovarishch, Khorosho</em>. III O cinema é infinito — não se mede. Não tem passado nem futuro. Cada Imagem só existe interligada À que a antecedeu e à que a sucede. O cinema é a presciente antevisão Na sucessão de imagens. O cinema É o que não se vê, é o que não é Mas resulta: a indizível dimensão. Cinema é Odessa, imóvel na manhã À espera do masssacre; é <em>Nevski</em>; é <em>Ivan O Terrível</em>; és tu, mestre! Maior Entre os maiores, grande destinado...  Muito bem, Eisenstein. Muito obrigado. Spasibo, tovarishch. Khorosho. Los Angeles, 12/2/1948