De noite para proclamar-se minha escrava...

Vinicius de Moraes

De noite para proclamar-se minha escrava  E antes mesmo de tê-la, tendo-a na boca presa  Era o jovem que fui, semeador de beleza  Que voltava do mar a dizer, triunfal  "Vi Nossa Senhora! Num banco de coral  Ela estava a chorar, tão linda, me chamando!"  Ou que, vindo do sol, afogueado, vermelho,  Punha-me nu e ria do meu corpo no espelho  E que, sentado à praia, entre meninas da Ilha  Afagando um quadril, consertando uma quilha  Sonhava essa mulher, plena, doce e carnal  Que em mim trouxesse o anjo à presa do animal  Essa mesma mulher que me surgiu agora.  Quando ela apareceu, risonha, inesperada  Para o encontro ideal, azul sobre a calçada  Solto o cabelo, terno o gesto, leve o passo  Não houve em meu olhar nem temor nem embaraço  Senti nessa mulher desconhecida alguma  Coisa que a iluminava e a despia da bruma  Como se na nudez em que a via surgisse  Todo o sonho de amor da minha meninice  Que importava quem fosse?... ao tocá-la sentia  A carne que amava e sobre a qual dormia  A alma fecunda e só, que, longa, me acordava.  Que mais farei na vida feita  Rico de tudo, nada tenho  Vivo fugindo  Sigo aceitando o que me vem  Mas tudo vem tão diferente.